Em quatro horas li Caim, em quatro horas fui Abel.

9789722120760Pelas três horas da tarde, no meu dia mais enfadado, decidi-me a comprar o já polémico livro de José Saramago, Caim. Sendo um senhor que possui um requinte para a crítica e difamação dos costumes, de uma maneira subtilmente gentil, esperava um fantástico livro, repleto de alusões e conclusões. No tempo que se passou, desde o momento em que li “Quando o senhor, também conhecido como deus (…)” até à última magnífica frase “A história acabou, não haverá nada mais que contar”, senti-me maravilhado, enojado, embasbacado, desiludido, pensativo, e finalmente cheguei à conclusão, após extensos tratados mentais, e ponderações pseudo-teológicas, que Saramago não sabe do que fala. Pois é, lá serei eu acusado de bispo, frade, fanático, e negá-lo-ei, pela mais simples das razões. Não sou nenhum bispo, frade ou fanático, porque sei do que falo. Sei que quando digo que a Bíblia é um livro complicado, e que exige um certo estudo para a compreender, digo algo certo. Sei que quando digo que o que parece, muitas vezes não o é, no caso bíblico, estou certo. E porque é que estou certo?

Primeiro de tudo, esclareçamos  a mais profunda questão. Todos sabemos que o homem não veio do barro, não comeu uma maçã e foi banido de Éden, e não se viveu Adão, uns bons novecentos anos. A Bíblia é simbólica. O Génesis foi escrito para dar a entender ao povo religioso, que Deus tinha poder, e ao mesmo tempo assustando-os pois “cuidado, Deus tirar-vos-à de vosso jardim”! Ora, meus caros leitores, está bem visto que Saramago leu a Bíblia, mas da forma campestre, empobrecida, e pouco atenciosa, a mesma maneira que eles nos acusa de a ler. Chama-lhe manual dos maus costumes. Pois seja, certo é que se manteve na fé de uma inteira religião, e cujos os princípios não partem do incesto e da destruição. A religião baseia-se no amor, que está bem visível no Novo Testamento, mas pouco claro no Antigo Testamento, apesar de lá estar. Se Saramago tivesse dedicado um pouco do seu tempo ao estudo das escrituras, com a devida atenção de uma pessoa educada, e menos tempo a fazer propaganda do mais baixo nível que há, acusando, difamando, como se a razão dele fosse, talvez Caim soubesse mais a água que a veneno.

Parto do princípio que o leitor conheça a base do Génesis. Adão e Eva, primeiros homens criados à face da terra, têm dois filhos, Caim e Abel. Ora Caim, ao ver que Deus amava mais a Abel, decide matar Abel, sendo o primeiro homicídio e fratricídio da História da Humanidade. Pois sendo que de tal premissa parte Saramago, contando o Génesis à sua maneira, da maneira que nos habituou, à la Memorial do Convento. E bem o fez, em certas partes. Caim mata Abel, e é condenado a ter um sinal negro na cabeça, e a vaguear eternamente pelo mundo. Torna-se então um viajante, e passeia pelas paisagens bíblicas, desde a Torre de Babel, à queda de Sodoma e Gomorra, à Arca de Nóe, passando por Job, e por Abraão. O sentido de épico está latente no livro, está presente como uma mosca no corpo morto de Abel.

Porém Saramago anula-se. E anula-se porquê?

O senhor do Nobel, acaba, por fim, por demonstrar que a idade debilita. Não querendo ofender o autor, passo por dizer que fiquei estonteado com algumas partes do livro, nomeadamente as suas metáforas tão bem escritas, que pelos vistos nunca o largarão, e ainda bem! Porém, comete certos erros, erros graves, erros de presunção, que se assemelham à escrita infantil, adolescente, de jovens de dez, onze anos. Saramago introduz aqui uma nova faceta rude, como por exemplo, neste excerto:

“O resultado, vistas as circunstâncias, era mais do que previsível, o homem ejaculou de repente, em jorros sucessivos que, ajoelhadas como estavam, as escravas receberam na cara e na boca”

Saramago mostra que ao contrário d’ “As Intermitências da Morte“, onde nos esbofeteou, e é na minha opinião o seu melhor livro, não sabe construir uma cena de prazer, amor, ou puro sexo. Gabriel Garcia Marquéz fá-lo melhor, o Eça descreve-o melhor, e de notar que Marquéz o fez recentemente em “Memórias das Minhas Putas Tristes”. E Saramago chega, e faz-me ficar espantado. Como é que um Nobel, desce assim tanto de qualidade como ele?

Não quero que me entenda mal, caro leitor, não é por se acreditar ou não acreditar na existência de Deus, que se deve atacar um livro. Eu simplesmente escrevo este manifesto, pois sinto-me ultrajado por esta facada de Saramago, que me habituou a bons livros. Quero dizer, Caim é um bom livro, li-o em menos de quatro horas e apenas faço isso a livros que aprecio,  mas não ao nível de Saramago. Espero que possa vir a ler mais um livro deste nosso Nobel, espero que possa escrever mais uma cambada deles, para se redimir, espero poder escrever de novo “Saramago é perfeito!”. Neste momento apenas me posso limitar a dizer, timidamente, “O livro tem os seus momentos”, ou mesmo “É hilariante, mas não sei se isso será bom…”.

ng1207200O Caso Saramago, é, para concluir, um tema polémico. É-o sempre quando toca à religião, e ele soube escrever para ganhar dinheiro. Alguns colegas meus comentaram que Saramago caminha para os passeios de Dan Brown, com a polémica e o choque na capa, e a falta de conteúdo no seu interior. Proponho ao leitor que se ler Caim, o faça depois de ler algo como o Ensaio sobre a Cegueira, ou A Jangada de Pedra, pois este Caim sabe demasiado a Abel.

H. Ferraz Gomes,

Colaborador e Crítico do Blog Info Teen

“(…) ela mesma solicitava ou impunha, até ao acme dos orgasmos.”

In Caim, José Saramago, Caminho, 2009


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